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Opinião de um brasileiro na Austrália sobre a política brasileira

By in Opiniao on 1 de April de 2016

É complicado morar no exterior e querer opinar sobre política brasileira. Muita gente até acha que não temos mais esse direito por termos “abandonado” o país e não estarmos lá para ajudar a fazer as coisas melhorarem. Pode até ser, mas por mais desconectado que alguém fique do Brasil, é impossível não sentir algum grau de emoção em relação a tudo o que está acontecendo por lá nesse momento. Então vamos lá.

Eu votei no Aécio (por falta de opção) e nunca votei na Dilma e muito menos no Lula. Acho que a gestão do PT, apesar de ter alguns programas sociais que no papel são corretos (não quero entrar no mérito se deram certo ou mesmo em ideologia – aliás já já escrevo sobre ideologia), arruinou com a economia brasileira. O que rolou na Petrobras e todo o esquema com as empreiteiras dá nojo. A nomeação do Lula como ministro então, foi daquelas de simplesmente assumir que é sim culpado. Se fosse o contrário, iria encarar o Lava Jato como alguém que não tem nada a temer e até virar mártir.

Mas agora ter um impeachment para entrar o Temer? De um partido que esteve babando o ovo do PT por todos esses anos e é portanto cúmplice de tudo o que deu e está dando de errado. E se não for ele, ter o Cunha? E o que dizer de tantos deputados envolvidos em escândalos de corrupção, tendo direito a voto no impeachment?

Política Brasileira versus Política Australiana

Inicialmente quando sai do Brasil e mudei para o Canadá, e depois Austrália, achava um absurdo não poder votar diretamente para presidente nesses países. Soava algo anti-democrático votar num partido para que se esse tivesse a maioria no parlamento, governasse o país e apontasse o seu líder como primeiro ministro. Hoje vejo o quão errado estava e o quão cego fui de acreditar em um “salvador da pátria”.

O sistema político brasileiro é um lixo. Parece muito legal votar para eleger o salvador da pátria. Mas o salvador da pátria só governa com apoio do congresso. E para ter maioria no congresso é que a bandidagem começa. Para atrair os outros partidos, dá-se a posição de vice para um, e criam-se vários novos ministérios e empregos para agradar a todos. NISSO O BRASIL AGORA TEM 39 MINISTÉRIOS! E na falta de ministérios e cargos, o que manda é a grana… dai o lance do dinheiro na cueca, e do dinheiro correndo solto dado pelas empreiteiras para deixar todo mundo feliz.

No sistema parlamentarista, o partido que tem maioria no “House of Representatives” (tipo o Congresso Brasileiro) é o que governa e aponta o seu líder como o Primeiro Ministro do país. E se o líder não estiver indo bem, o partido pode colocar outro no lugar. Votamos no partido, nas suas políticas e ideologia. Lógico que o líder é a cara do partido, o seu principal garoto propaganda, mas é apenas um fator.

E qual a principal diferença? Com a maioria no congresso… não precisa de politicagem de ficar dando cargo, criando ministérios, ou pagando propina, para conseguir governar e criar leis. Todos os ministros são do mesmo partido ou coalizão (quando partidos se juntam para formar a maioria).

Mas nem tudo são rosas. Além do congresso, existe o senado – No senado, nem sempre o partido ou coalizão que está no poder tem maioria. E existe sim um certo nível de negociação para aprovar legislação. No geral, o senado respeita o mandato dado pelo povo ao congresso e apenas faz emendas as leis. Mas em algumas circunstancias, o senado, quando vê que a lei não tem amparo popular, pode sim bloquear e não aprovar.

O que acontece então? E está ocorrendo nesse exato momento na Austrália?

O Primeiro Ministro não precisa comprar ninguém – ELE DEIXA O POVO DECIDIR. Dissolve o congresso (e nisso sua própria liderança) e o senado e convoca eleições:

Malcolm Turnbull threatens double dissolution, announces May 3 budget
http://www.news.com.au/national/politics/malcolm-turnbull-threatens-double-dissolution/news-story/4eb699d64d9c888cf6df675bcad20a0b

Ou seja, se o senado não aprovar… Quem vai julgar é o povo.

Pelo que eu vi, parece que o senado e o PM vão acabar se entendendo: http://www.dailytelegraph.com.au/news/nsw/pms-poll-peace-pipe/news-story/88c54d5b48601b94c955ad2966af9dc4

Mas não é bem mais legal, o PM poder deixar na mão do povo a hora que quiser?

Será que a Dilma, Temer, e Cunha teriam coragem?

Ideologias

Então já disse que não votei no PT, e caso não saibam, aqui na Austrália o Aécio ganhou disparado.

Quer dizer que somos de “direita” então?

Se você perguntar para o brasileiros na Austrália do porque eles gostam daqui. Muitos vão dizer que é porque acham que o transporte público é excelente (até CEO’s andam de ónibus e trens por aqui), que os hospitais públicos são até melhores que os privados, que as escolas públicas tem boa qualidade, que o governo ajuda os estudantes a fazer curso superior, que o governo ajuda quando alguém está desempregado, que o governo dá mais benefícios para quem tem filhos e tem salários menores, que o governo ajuda a pagar remédios na farmácia, que o governo ajuda se você toma conta de familiares deficientes.

Longe de ser o paraíso na terra, mas todos tem uma vida digna. Onde um pedreiro pode ir no Cirque Du Soleil e sentar ao lado de executivo, ou o cara que está vendendo uma televisão na loja recomendar o produto porque ele tem o mesmo modelo em sua casa? Pouco se vê mendigos na rua (na maioria deficientes mentais) ou mesmo assaltos (acontece aqui mas não na escala brasileira).

Muitos vão dizer que aqui é bem melhor que os EUA (o ápice da economia de mercado) – onde tudo você tem que pagar e não pode contar em nada com o governo. Até pouco tempo atrás, se não fosse o presidente “socialista” Barack Obama, se alguém não tivesse plano médico privado com certeza seria negado tratamento em hospitais. Conheci um americano que sempre trabalhou duro, mas ficou desempregado na época da crise por alguns meses e com isso perdeu o seguro saúde… Fraturou a perna jogando futebol, e sem poder ser tratado devidamente hoje não pode praticar o esporte que mais gosta. Ele mesmo me disse que não votou e não gostava do Obama (normal no estado sulista de onde ele é), mas que o ocorrido havia mudado totalmente a visão dele.

Mas sabe o que pega no Brasil? E faz ser fácil se dizer de direita? O cidadão paga um monte de impostos – e mesmo assim ele tem que mandar o filho para escola particular, ter plano de saúde privado, ir trabalhar de carro porque o transporte público é terrível… se fechar em condomínio, pagar para ter o segurança na guarita…

Saudosos da ditadura?

Corrupção sempre existiu no Brasil. Mas foi naquela época que a coisa se institucionalizou na política. Quando o Maluf era governador de SP na década de 70, e enchia os bolsos com suas obras faraônicas super faturadas, ninguém podia fazer passeata ou protestar. E ai de quem reclamasse! O golpe de 64 não foi por causa de corrupção, foi o caos político e o medo de Brasil virar comunista. Lembrando que o Jânio tinha mandado o Django para visitar a União Soviética e dado a Ordem do Cruzeiro do Sul ao Che Guevara no mesmo ano que os EUA borravam as cuecas de medo dos mísseis soviéticos em Cuba.

Sem falar que a hiperinflação dos anos 80 foi fruto das belíssimas políticas dos nossos líderes militares.

Conclusão

O Brasil necessita de uma bela reforma política. Mas duvido que algum político queira mexer num esquema que sempre funcionou bem pra eles. Imagina o líder do país poder chamar uma eleição a qualquer hora porque o congresso está bloqueando o seu governo?

Não acho que o Brasil vá um dia se tornar parlamentarista. Infelizmente o nosso povo não está preparado para votar em partidos. E talvez nossos partidos não estejam preparados para governar dessa maneira.

Mas quem sabe, numa próxima eleição o povo entenda que o voto para deputado ou senador, não deve ser tão independente do voto para presidente?

O lance é que não existe uma solução simples para o Brasil.

Poderia tentar acreditar que basta termos uma classe política honesta e patriota, que quisesse o melhor para o Brasil, e colocasse o país a frente de seus próprios interesses. Mas isso é conto de fadas, mesmo nos países mais desenvolvidos, o sistema político é feito para colocar a classe política na linha.

PS Adicionado depois de publicar o texto umas horas atrás: Além do primeiro ministro, o governador geral (representante da rainha) também pode dissolver o parlamento e convocar eleições (isso aconteceu em 1974) em caso de impasse. No parlamentarismo alemão, a função cabe ao presidente eleito.

One thought on “Opinião de um brasileiro na Austrália sobre a política brasileira

  1. Pedro Junqueira
    1

    Fala Sandro,

    Belo artigo.

    Acho que acima do sistema parlamentarista que e lindo e funciona, principalmente a questao do sistema distrital e o peso igual do voto por distrito e o bi partidarismo complementando o que falou, mas o que tem que ter no Brasil e a mudanca cultural que vem com anos de educacao e treinamento da mao de obra que vai por fim melhorar a qualidade das insitituicoes. Como esclarecimento e educacao vem a mudanca de cultura e o fortalecimento das insitutuicoes a punicao dos corruptos e a melhora do sistema geral que vai operar em um novo patamar de altissimo padrao.

    Abraco

    Pedro