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Algumas reflexões sobre a comunidade brasileira na Austrália

By in Opiniao on 27 de March de 2014

Essa semana recebi a ligação de um amigo que acabou de retornar a Austrália depois de passar uns anos trabalhando no Brasil. Nós nos conhecemos em 2004 em Melbourne. Na época ele estava vindo para trabalhar temporariamente num projeto de TI, e como não haviam muitos brasileiros por lá, passaram o meu número de cel como um contato da terrinha para dar umas dicas sobre a cidade e tudo mais. Com o tanto de amigos brasileiros que tenho hoje, é bem estranho lembrar que naqueles dias os meus melhores amigos eram australianos. Daqueles amigos que a gente podia chegar na casa a qualquer hora, passar horas jogando playstation ou fazendo churrasco (lembro até hoje daquela chapa enferrujada que o cara limpava com WD40 e jogava as carnes em cima). Tinha um outro que sempre tentava me arrumar uns “dates” e vice e versa (várias furadas como uma menina que tinha quase 2 metros de altura – quem me conhece deve estar rindo).  Mas o ponto é que mesmo que eu já estivesse bem integrado e com um círculo de amizades estabelecidas em 6 anos de país, quando recebi a ligação desse novo brasileiro na praça, foi uma prazer bater um papo em português e querer ajudar de imediato. Nós brasileiros temos essa coisa de nos tornarmos amicíssimos após 5 minutos de conversa.

O que fica é que por mais que estejamos vivendo fora do Brasil por muitos anos e bem adaptados a vida local, ainda temos laços fortes com nossa origens. E quando vemos pessoas que falam a mesma língua que a gente, que tem os mesmos olhares cúmplices nas situações engraçadas, que sabem quem é o Jô Soares, Faustão, Silvio Santos e não se espantam com a nossa irracionalidade quando o nosso time de futebol do coração está jogando – vai ser sempre aquela identificação e conexão imediata. Até eu que sou conhecido pela minha frieza prussiana não escapo. É questão de afinidade. A mesma afinidade que os descendentes de italianos em SP mostram quando tem a festa da Nossa Senhora Achiropita e os sulistas de origem alemã mostram com suas Oktoberfests.

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© Betta Design via Flickr

Lógico que para muitos que vem para aprender inglês e ter uma experiência internacional deve rolar uma preocupação em estar vivendo num Brasil no exterior. E é triste as vezes ver alguém que está na Austrália a 6 meses falando ainda um inglês macarrônico. Sem bem que inglês macarrônico é melhor que ter o inglês de índio dos primeiros dias. Já é prova de evolução. Mas o lance é que é fato que de um jeito ou de outro, mesmo os que procuram o isolamento, vão acabar tendo amizades brasileiras. Não tem como fugir do conforto que é falar na nossa língua materna. O conselho que deixo é que uma coisa não precisa excluir a outra. Ter amizades brasileiras é legal, mas não é por isso que você deve se fechar para os australianos e muitos outros povos que moram aqui.

orkut

Vou dizer também que muito da minha re-conexão com os outros brasileiros veio através do Orkut e suas comunidades em 2005 nos primórdios da mídia social. Em Sydney para ouvir português era só ir até Bondi, Manly, Maroubra, e Coogee – O mesmo não dava para dizer de Melbourne pelo menos naqueles dias. Fora a Copa de 2002 que reuniu bastante brasileiros no Copacabana em Fitzroy (ainda existe?), os brasileiros de Melbourne não eram visíveis e a cidade sempre atraiu poucos estudantes por causa do clima. O falecido Orkut foi então a ilha virtual para os vários náufragos brasileiros naquele Melbournian sea se conectarem. E mesmo no meu retorno a Sydney foi peça importante para começar a construir minha vida social novamente e onde conhecí minha namorada e meus amigos mais chegados (dentre eles o Jerry e a Michele do BrazilAustralia).

Essa nossa comum unidade brasileira se manifesta de muitas maneiras diferentes. Nas nossas amizades. Na conversa jogada fora quando nos deparamos com outros brasileiros. Nos mais variados grupos de facebook. Nos blogs. Nos grupinhos da escola. Na galera que mora junto nos apartamentos. No futebol de brasileiros no Centennial park. Nas baladas brasileiras. No trabalho (na Optus temos o almoço dos brazucas toda quinta). Nas iniciativas como o Tagarela da Nina postando sobre empregos toda semana. Nas associações não virtuais como o Bracca de Sydney, Abrisa de Melbourne, e a BRITA dos profissionais de TI que se encontra no Greenwood Hotel em North Sydney. Nos encontros de mães brasileiras num parque em North Sydney. Nas rodas de capoeira. Nos churrascos de Coogee e Shelly Beach.

E em todas essas manifestações, vejo muita solidariedade, muito humor, e muita coisa boa da nossa cultura. Lógico que nem tudo são flores e sempre vão ter uns tomates podres aqui e ali, gente que quer tirar vantagem e aprontar. Eu mesmo já me desapontei muito com alguns brasileiros que conhecí, mas na soma de todas as coisas o resultado tem sido muito mais para o lado positivo.

Imagem de destaque © Mixy

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One thought on “Algumas reflexões sobre a comunidade brasileira na Austrália

  1. 1

    Eita, nostalgia das fortes!
    heheheh