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Visto temporário de trabalho facilitado e a agenda do governo

By in Notícias, Opiniao on 13 de March de 2014

Lí ontem de manhã no Sydney Morning Herald que o governo resolveu relaxar as regras do visto 457 (visto de trabalho temporário com patrocínio de empresa), e ví que a Nina também postou a tradução no Tagarela. Ótima notícia para quem conta com essa opção para viver na Austrália sem precisar ficar pagando curso num visto de estudante, ou para quem ainda está no Brasil e tem interesse em vir para cá para trabalhar direto na área (principalmente o povo de TI). Eu pessoalmente vim para a Austrália nesse visto, e é realmente uma grande porta de entrada para a residência permanente.

Mas esse “resolveu relaxar” do governo na verdade nada mais é que reabrir uma brecha que havia sido fechada pelo Labor Party em 2013. Antes do visto de trabalho ser concedido a alguém, as empresas antes tinham que receber uma autorização do governo para poder patrocinar (ou como dizem aqui “sponsorar”) empregados. A brecha que existia é que apesar dessa autorização ser para um certo número de empregados, as empresas ainda assim poderiam trazer muito mais sem serem penalizadas.

Essa decisão do governo é resposta a pressão das empresas para que esse tipo de visto não tenha tanta burocracia. Na área de TI existe realmente uma necessidade muito grande de gente especializada, e é complicado perder semanas esperando um visto sair.

Mas por outro lado, em alguns outros setores como o de mineração, o que existe na verdade não é apenas a carência de profissionais especializados, mas também o intuíto de achar profissionais mais baratos e sem afiliação com os sindicatos locais.

Com tantos anúncios de corte de empregos e a maior taxa de desemprego em 10 anos, isso faz sentido?

Pois é, para quem não sabe, a taxa de desemprego na Austrália em Fevereiro chegou a 6% e é a maior dos últimos 10 anos. A Qantas anunciou um corte de 4000 funcionários semana passada, a Alcoa outros 1000, enquanto a Holden (Chevrolet local) e Toyota anunciaram que vão fechar suas fábricas na Austrália do Sul nos próximos anos pulverizando 30000 empregos até 2017.

E as notícias sobre o corte de direitos trabalhistas dos últimos dias?

Além de facilitar a vinda de trabalhadores estrangeiros para competir com a mão de obra local, e portanto colocar uma pressão nos valores salariais, o governo também está propondo mudanças como a eliminação da obrigatoriedade do acréscimos dados aos pagamentos de hora extra e trabalhos em feriados e fins-de-semana, uma  jornada trabalho mais flexível, e redução do poder dos sindicatos:

Workers under microscope: Abbott government to scrutinise pay, penalties, conditions

A agenda do governo do Tony Abbott

É bom lembrar que o governo atual é o Liberal Party, então não é surpresa nenhuma termos uma agenda de liberalismo econômico com ênfase em competitividade, livre concorrência, leis de demanda, e menos interferência do governo.

Pode parecer um choque para muita gente mas eu concordo bastante com a ideologia liberal na área de competitividade, e também apoio a abertura do 457 e o programa de imigração qualificada. Também acho que alguns programas sociais (coisas do tipo bolsa família no Brasil) daqui são generosos demais e não colocam incentivos suficientes para as pessoas voltarem ao mercado de trabalho.

Mas quando disse que sería um choque, é porque apesar do desgosto que o último governo foi e de odiar como o Labor Party é  controlado pelos sindicatos, eu apoio colocar um preço no carbono (seja por imposto ou um sistema de mercado) para o desenvolvimento de novas indústrias de geração de energia, acredito na necessidade de ter uma NBN (isso aqui é um texto bem grande para explicar, mas é só olhar a história da Estonia e do Skype para se ter uma idéia), e creio que educação e saúde devem ser garantidos pelo governo (Prime Minister Tony Abbott flags cuts to spending growth for health and education).

Ver pontos positivos nos dois lados opostos da política é uma coisa complicada, principalmente em época de eleição.

Ao meu ver a agenda do governo do Abbott é bem clara e tem seus méritos. Só espero que a Austrália nunca chegue a esse ponto do artigo que saiu no The Age:

We don’t want a US-style army of working poor

E resumindo tudo o que eu disse acima, a fórmula é simples: O Labor Party é apoiado pelos sindicatos, então trabalhadores estrangeiros botam em risco os bons salários e regalias do trabalhadores locais. Os Liberals são apoiados pelas empresas, então quanto maior for a oferta de mão-de-obra mais fácil se torna a negociação de salários.

2 thoughts on “Visto temporário de trabalho facilitado e a agenda do governo

  1. 1

    O que eu acho engraçaco é que todos falam que os benefícios como Newstart ou Childcare rebate são muito generosos. Porém, ninguém comenta a generosidade do governo com ‘welfare’ para os ricos e classe média alta. As grandes indústrias aqui pagam MUITO menos impostos do que deveriam pagar, em especial as empresas de mineração. Outra: os alunos de escolas de elite, que cobram $30mil por ano recebem quase a mesma quantidade de verba do governo que alunos de escolas particulares. Se a função do sistema de welfare é diminuir a desigualdade (ser um ‘safety net’) não faz sentido famílias com renda média a alta receberem o childcare rebate, por exemplo. A classe média (e eu me incluo nela) faz a egípcia quando lhe convém, e esquece que ela também recebe benefícios do governo.

    O Newstart (bolsa família) não é generoso mesmo!
    http://www.humanservices.gov.au/customer/enablers/centrelink/newstart-allowance/payment-rates-for-newstart-allowance Como uma família com esses valores (e um pouquinho de nada de rent assistance e child family benefit) paga aluguel e alimentacao, considerando que por semana, um aluguel mesmo num bairro afastado não sai por pelo menos $200? A maioria das pessoas que estão no Newstart sofrem de desvantagem socio-estrutural e intergeneracional, e para alavancá-las é um trabalho longo. Posso garantir que a maioria das pessoas querem trabalhar, e na verdade a maioria trabalha porque você é permitido um número de horas por semana desde que não exceda um valor X. O problema é que estão em empregos que pagam mal e não desenvolvem habilidades para o novo milênio. Se o governo investisse em educação e não cortasse a verba para TAFES, as pessoas poderiam ser melhor treinadas porque não precisariam em se preocupar em trabalhar para complementar a renda. (Um otima discussao aqui: https://theconversation.com/will-a-newstart-boost-actually-deter-jobseekers-9083)

    O que me preocupa mais é a visão a curto prazo dos governos recentes. A Austrália investe pouquíssimo em pesquisa de ponta e geração de tecnologia. Quatro amigos meus sairam daqui para ir para os EUA e Alemanha porque lá mesmo com a crise há mais oportunidade na área tecnologica para quem e´pesquisador. Ha duas semanas o governo decidiu cortar a verba de um grande centro de biotecnologia em Melbourne, onde foi produzido o primeiro ‘bionic ear’ do mundo. O foco ainda é nas indústrias primárias, só que a longo prazo isso não vai sustentar a competitividade do país.

    Se depender dos empregadores e atual governo, a Austrália está muito mais próxima de ser os EUA do que um páis da Escandinávia.

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