Tan Le

Para explicar o conceito de australiano

By in Curiosidades on 14 de February de 2014

A foto do post de hoje é da Young Australian of The Year de 1998, Tan Le. Tem um certo significado pessoal pois este foi o ano em que mudei para a Austrália. E naqueles dias, ver uma jovem de 22 anos, nascida no Vietnam, que chegou aqui como refugiada num barco (sim, os tais boat people tão indesejados nos dias de hoje) ser eleita como a jovem australiana do ano, me causou uma ótima impressão sobre a receptividade dos australianos, e me passou a tranquilidade de acreditar que vencer aqui e conquistar o seu espaço não depende de raça ou do seu local de nascimento.

Exemplos como o seu, ou do post anterior sobre os sotaques estrangeiros, reforçam que a Austrália é sim um país no geral bem tolerante e aberto. Mas não significa que não existam pessoas preconceituosas, xenófobas, e etc – tem um post excelente sobre esse assunto no blog do Jerry – E também que algumas pessoas, mesmo não sendo racistas, tenham pensamentos diferentes em relação ao que significa ser australiano, ou quem são australianos de fato.

Aos olhos da lei, ou dos mais esclarecidos, australiano é quem a) nasce na Austrália, e que pelo menos um dos pais seja residente permanente (não precisa ser cidadão) b) é filho de pais australianos c) se naturalizou

Mas então como ainda existe essa coisa de pessoas nascidas aqui, que a família está na Austrália por 3 gerações, ainda serem referidas como gregas, croatas, italianas, chinesas, libanesas? E um criança filha de ingleses, já ser vista como australiana?

Pois é, antes da cidadania australiana existir (só surgiu em 1948), o termo australiano servia para definir os “british subjects” (súditos britânicos) que residiam na Austrália, ou seja, um sub-grupo da população britânica.

Para se ter uma idéia, os aborígenes apesar de serem considerados pela lei como Australianos em 1949, foi apenas em 1967 através de um referendo é que passaram a ser contados como parte da população. Incrível, não?

Aqui está a questão colocada ao povo Australiano na época:

“DO YOU APPROVE the proposed law for the alteration of the Constitution entitled— An Act to alter the Constitution so as to omit certain words relating to the People of the Aboriginal Race in any State and so that Aboriginals are to be counted in reckoning the Population?”

Tradução:

“VOCÊ APROVA a proposta de lei para alterar a constituição com o título- Um ato para alterar a constituição para omitir certas palavras em relação ao Povo de Raça Aborígene em qualquer estado, para que os aborígenes possam ser contados como parte da população?”

Então ser australiano, true blue aussie como dizem aqui, na visão e “subconsciente” de muitos ainda tem essa conotação implícita de subgrupo do povo britânico. Lógico que muitos australianos vão discordar disso, afinal apesar da rainha e do Union Jack, a Austrália é um país independente.

E para dar mais um mergulho na história do país, o primeiro ministro de imigração do país em 1945 até criou o termo “New Australians” para o imigrantes europeus não britânicos que migravam para Austrália no pós-guerra: http://en.wikipedia.org/wiki/New_Australians

Mas voltando ao início do post e vendo outros Young Australians of The Year com nomes como Akram Azimi (2013), Marita Cheng (2012), e Khoa Do (2005) – A Austrália é claramente uma sociedade em evolução. A grande maioria do povo australiano nunca fez barulho para a imigração parar. Se fizesse, os governantes não seríam re-eleitos, e o país já tería fechado as portas (já fechou para os refugiados… e isso requer outro longo post para explicar) – Mas lógico que se os imigrantes começarem a trazer problemas ao invés de benefícios para o crescimento e desenvolvimento do país, essa mentalidade aberta pode mudar.

Agora para fechar o raciocínio – ao meu ver ser visto ou não como australiano mesmo sendo cidadão australiano não muda a vida de ninguém aqui. O que importa é se sentir parte da sociedade australiana e ter sua opinião respeitada independente de rótulos. Certamente com o tempo, toda essa coisa sobre ser australiano no sentido colonial da coisa vai aos poucos acabando.

Coisas para refletir: Porque um filho de portugueses já é visto como brasileiro ao nascer no Brasil, e um neto de japoneses, vai ser sempre “rotulado” japonês apesar de ser brasileiro?

Um pouco mais sobre a Tan Le:

Tan Lee é fundadora da Emotiv, empresa que desenvolve tecnologias que visam possibilitar o manuseio de objetos com impulsos cerebrais. Figura como uma das pessoas mais influentes do mundo em listas da Forbes e Fast Company.

Aqui vai um vídeo legal de um evento da Ted onde ela conta sobre sua experiência como imigrante:

 Photo by by jurvetson

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