Indecision

Ficar ou não ficar, eis a questão‏

By in Opiniao on 22 de January de 2014

Às vezes sinto a maior saudade. Do nada ela bate. E bate, viu. Parece um daqueles ventos quentes de verão que abrem-alas pra uma apocalíptica tempestade. Essa é aquela danada de saudade que chega e já se espalha – ela dói, é pesada, e me faz pensar se é isso mesmo que eu quero, se essa é a escolha da minha vida. Ficar longe, muito longe, longe da minha cultura, da minha língua, do meu sorriso. O meio-de-campo de emoções se embola e dá aquela vontade louca de abandonar tudo aqui e pegar o primeiro avião. Encontrar a minha terra, o meu céu… Começo a viajar sozinha e a imaginar, aos poucos, a ansiedade da espera para se chegar ao meu, meu tão sonhado Rio, a vista das montanhas lá de cima da janelinha do avião, suas praias, seu mar. A recepção no aeroporto, o caminho pra casa, os encontros.

Ah, se eu fosse maluca…

É, mas calma que eu não sou – a vontade aparece mas eu sempre acabo despertando desse estado entorpecido. O que eu tenho é que aprender a domesticar a minha mente que ainda não sabe se comportar e às vezes transvia para esses pensamentos gostosos e insanos.

Olho em volta e vejo que isso – que de uma forma, continua sendo um sonho; é real. Penso no que tem aqui, no presente, onde estou. E no aproveitar, curtir, me entregar. Aqui mesmo, em volta, no mundo palpável, físico. O que tem de bom, por que vim, por que decidi isso, e assim começo a pensar naquele meu Rio de outra forma e lembro dos truques da nossa imaginação, que fazem a gente idealizar uma história, um lugar.

Às vezes construo o seguinte diálogo criando os personagens na minha cabeça representando o Brasil e a Austrália:

- Hummm, esse seu Rio aí, que que tem nele? Tem coisa boa?
- Tem sim senhor.
- Tem coisa ruim?
- Também tem sim senhor, diria que até bastante.
- Tem coisa muito boa?
- Putz, tem coisa muuuito boa!!! Muitas coisas muito boas, aliás.

Já com o outro personagem é mais ou menos assim:

- E aqui, nesse país longe, diferente? Tem coisa boa?
- Tem sim, claro.
- Tem coisa ruim?
- Hummm… Olha, coisa ruim, assim ruim ruim, nao sei… não não, tem coisa ruim sim, mas não é ruuuim não sabe? É ruim mas não é ruim. Entendeu?
- Hum, mais ou menos. Não é tão ruim assim, você quer dizer?
- É. Acho que é por aí.
- Tá, ok, ok, confuso isso hein. Vamos mudar pra coisa boa. Tem coisa muito boa?
- Tem coisa boa sim senhor.
- Não falei boa, falei muito boa. Tem coisa muito boa?
- Hum, tem.
- Só isso?
- É, ué, já falei que tem.
- E a empolgação, cadê? Voce tá falando de coisa muito boa lembra? É isso?
- Hum, é. Tem. Tem sim.

Às vezes é assim que me sinto. Um amigo uma vez me falou uma frase que eu não vou esquecer nunca: “Verinha, enquanto a Austrália é novela das 6, o Brasil é novela das 8″. Pros 3% de brasileiros que não veem novela, eu explico: as novelas das 6 são aquelas com cenários lindos, tudo limpo, perfeito. Todo mundo arrumado, bonito, com pele lisa sabe? Geralmente é novela de época. As ações são poucas, geralmente uma história romântica, fofocas inocentes dentro de casa, sorrisos, gente simpática e claro, um galã estilo Disney e o casal que se casa no final e assim são felizes para sempre.

A novela das 8 não. A novela das 8 tem ação, tem o mocinho cheio de falhas geralmente mulherengo e safado e que tá pegando a secretária, mulheres loucas urbanas e obsessivas que destratam seus funcionários que trabalham naquela mega-corporação da família, viagens para a Europa no início da novela, alguém que é assassinado no final, o mendigo-gente-boa que toca um sambinha na rua, a história da empregada pobre, a história da patroa rica – sempre, com muita, mas muita ação essa novela das 8.

Engraçado que pra mim essa comparação se encaixou perfeitamente. Assim como o Tom Jobim que falou aquela famosa frase: “Morar no Brasil é uma merda mas é bom, morar nos EUA é bom mas é uma merda.”

Outra seria aquela do motorista de bugue nas dunas de Natal: “E aí dona, quer com emoção ou sem emoção?”. O Brasil é com emoção. Ah, devo falar que eh com tanta emoção que parece até que você vai cair do bugue no meio caminho – em compensação, você se diverte que é uma beleza.

Por que eu estou falando isso?

Devo confessar que a minha primeira idéia era sentar na cadeira para escrever um post sobre o que é ser “imigrante” mas não tem jeito, antes de entrar na tática eu tinha que colocar o dedo na principal ferida – por que meu amigo, se você não está preparado emocionalmente pra isso, é melhor pensar com mais calma afinal esse é o primeiro ponto: saudade, indecisão, pensar lá e aqui. Querer voltar, querer ficar.

Claro que isso não acontece o tempo todo, a gente acaba se integrando à rotina australiana e tem dias (às vezes, semanas) que nem se pensa no Brasil. Mas por mais que você esteja integrado, você vai sempre pensar no seu país – pensar só não, mas idealizá-lo usandos lentes cor-de-rosa e lembrando, na maioria, das coisas boas. Por isso é bom parar para lembrar das coisas ruins também, se não você pira. E tem coisa ruim sim, como falei antes, tem muita. Infelizmente.

Bem, aqui eu estou falando de mim: conheço gente que pensa ao contrário, quando lembra do Brasil, lembra de assaltos, pobreza, insegurança. Só lembra das coisas ruins. De repente era melhor pensar assim, mais fácil. Mas não consigo. Essa não seria eu, não seria a Verinha que, apesar de tudo, ainda ama o Brasil. Quanto a essa indecisão a que me refiro, conheço de tudo: brasileiros que nem pensam em voltar, brasileiros que nem pensam em ficar… Mas a maioria quer ficar na Austrália por um tempo e depois voltar para o Brasil: seja em dois anos, cinco, dez ou quando se aposentar. Se isso vai acontecer mesmo, ai eu jah nao sei. Mas não tem jeito, você não esquece nunca.

Quando você mora fora tudo é novo. Você não tem uma história naquelas ruas, o verde das plantas tem um tom diferente, mais que um idioma, o jeito de se expressar é diferente, de comer, de celebrar, de negociar, de comprar. Quando nós brasileiros lembramos das aulas de História da quinta série, pensamos no Pedro Álvares de Cabral e no Tratado de Tordesilhas. Eles não. Os símbolos, os sinais mudam diferentes. O jeito de fazer amigos, o modo de conseguir trabalho… fora a distância da familia e dos amigos de longa data que nunca, nunca serão substituídos.

Mesmo com tudo isso, fico admirada como as qualidades fundamentais de nós, humanos, seres complexos e mutáveis. Por que, apesar disso tudo no final “a gente se vira”. Se vira sim, aprende, quebra a cara, se dá bem, enfim, aprendemos com os nossos erros e acertos. A gente insiste por que, mais do que emoções limitadas à nossa cabeça, o que todo mundo quer é viver bem.

Vejo, no caso de vários brasileiros, que mesmo com tudo isso a vida aqui na Austrália ainda é melhor. No final das contas, o que compõe, digamos, 70% da nossa vida é aquela rotininha lá do dia-a-dia: trabalho, casa, esperar o final de semana, final de semana, casa, trabalho etc. E por mais que você tenha um certo “conforto” (metaforicamente falando) no país de origem, às vezes você não tem qualidade de vida ou perspectiva de ter uma vida melhor (agora conforto esse economicamente falando).

E essa é uma das grandes atrações da Austrália. Apesar de parecer ter falado que aqui não tem coisa muito boa, devo voltar atrás e falar que tem, sim, principalmente as possibilidades que se abrem em vários quesitos. Poder viajar mais, absorver uma nova cultura, começar a ver o mundo – e principalmente, o Brasil – com outros olhos. Aprender, se aventurar, odiar, sofrer, amar. Sair da zona de conforto.

Eu sei que tem gente que não troca a vidinha de sempre no Brasil por nada – isso aí, cada um tem a sua escolha. As pessoas são diferentes, precisam de experiências diferentes. Pra mim a Austrália foi e continua sendo uma experiência única, inesquecível. Certamente saí da minha zona de conforto ao tentar a vida em outro país. Já me perguntei diversas vezes se fiz a coisa certa. Fiz sim, só eu sei que se eu não tivesse vindo morar fora seria uma eterna frustrada.

Sair da zona de conforto.

E entrar nela também.

O triste do nosso país é que ele não te dá muito liberdade: liberdade não é poder beber cerveja na praia, pra mim liberdade muito maior é poder se arriscar na vida e saber que você não vai estar na merda quando voltar. Que vai ter um emprego, que vai ter dinheiro, que não, nunca você vai ficar na sarjeta. Aqui não rola isso por que qualquer emprego que você tenha você ganha dinheiro. Grana boa, pra viver uma vida acima do razoável.

Alguns brasileiros que conheço são loucos pra voltar a morar no Brasil mas não voltam. A primeira pergunta que passa pela cabeça deles é: “voltar pra fazer o que?”. Ficam com medo de passar perrengue no Brasil, apavorados pela incerteza, pela dificuldade em encontrar um emprego que pague bem, que faça eles terem uma vida decente, fora a inseguranca que pesa muito. E assim o verde brasileiro se torna menos verde, as praias, menos bonitas, o povo mais triste. E aquele sonho que eu tive lá no começo muda.

De uma certa forma, eu não posso reclamar muito pois nunca tive dificuldade de encontrar emprego no Brasil. Mas não tenho pressa de voltar. Sinto falta, sinto saudade, mas ainda tenho um bom tempo aqui na Austrália. Não quero só viver, quero navegar, explorar, ver mais, conhecer mais. Tenho certeza que o meu Rio estará sempre lá, de braços abertos e sorrindo pra mim.

Escrito por Vera Albuquerque | vera_albuquerque@hotmail.com

One thought on “Ficar ou não ficar, eis a questão‏

  1. 1

    Excelente post Vera.
    Vc é a Vera amiga da Marina Vieira que mora aqui em Brisbane?